A onda do figo na perfumaria


Pesquisas recentes indicam que o mercado de perfumes industriais está passando por uma saturação dos florais doces tradicionais e dos gourmands excessivamente açucarados (zero julgamentos, mas eu ouvi um amém?). Nesse cenário, o figo se consolidou como o equilíbrio perfeito entre o frescor botânico e o conforto cremoso. A ascensão dessa nota, que antes ficava mais restrita à perfumaria de nicho e hoje domina grandes lançamentos globais e nacionais, ao que tudo indica deve-se a fatores estruturais e a mudanças claras no comportamento do consumidor.

1. Uma nota, múltiplos territórios olfativos

O figo é um dos poucos conceitos botânicos que consegue entregar um "arco completo" de evolução em uma única identidade, sem se limitar ao aspecto puramente frutado:

  • O topo verde e amargo: Evoca a folha da figueira, o frescor da casca e a seiva vegetal picante.

  • O coração lactônico: A seiva leitosa traz uma textura aveludada, cremosa e reconfortante, que lembra nuances de coco sem o dulçor tropical óbvio.

  • A base amadeirada e terrosa: A transição para o corpo da árvore (a madeira da figueira) ancora a fragrância, garantindo sobriedade e sofisticação.


Desdobramento clássico da nota de figo em pirâmides olfativas contemporâneas
Fonte: Perfumedom - Wild Fig Fragrance Oil - No 1 European Fragrance Supplier

2. A reinvenção do conforto (O "Novo Gourmand")

O consumidor atual tem buscado por sofisticação textural. O figo atende à demanda por aromas que acolhem, mas trazem uma assinatura menos óbvia que a baunilha tradicional. É uma doçura frutada que carrega um contrapeso amargo e mineral, mudando a percepção antiga de "doce em calda" para um sinônimo de "luxo contemporâneo".

3. Fluidez e apelo compartilhável (Unissex)

O mercado caminha fortemente para o fim das barreiras rígidas de gênero na perfumaria. Por transitar entre o herbal, o frutado e o amadeirado, o figo não inclina excessivamente nem para o floral clássico, nem para o amadeirado seco masculino. Ele se adapta de forma muito orgânica à pele de quem o usa, oferecendo versatilidade.

4. O desejo por realismo botânico

Há uma busca crescente por "fotografias olfativas" - fragrâncias que parecem capturar um elemento da natureza em alta definição, com todas as suas nuances realistas (como a aspereza da casca ou o frescor da folha macerada). O figo entrega esse hiper-realismo com muita facilidade na construção de um acorde.

Aqui uma curiosidade: Como o figo não rende um óleo essencial viável por destilação direta da fruta, sua presença na perfumaria industrial é sempre uma reconstrução artística. Na perfumaria convencional, isso depende fortemente de moléculas como o Stemone (para o verde da folha) e as gama-lactonas (para o aspecto leitoso).

 Mas e na perfumaria natural? Posso fazer um perfume de figo?

Reconstruir o acorde de figo utilizando exclusivamente a paleta botânica é um exercício  complexo na perfumaria natural - e por isso mesmo instigante. O principal motivo técnico é regulatório: o Absoluto de Folha de Figo (Ficus carica) natural possui restrições severas e, em muitas diretrizes de produtos sem enxágue, proibição prática pela IFRA devido à presença de furanocumarinas fototóxicas (como o psoraleno e o bergapteno). Sem o absoluto direto, o perfumista botânico precisa trabalhar em um mosaico molecular e sensorial, dividindo a arquitetura do figo em três facetas fundamentais. Abaixo, listei algumas ideias de matérias primas naturais que eu usaria para esse exercício de perfumaria criativa, levando em consideração o que temos disponível no mercado brasileiro (nessas horas eu queria MUITO morar na Europa 😔)

1. A faceta verde (folha, caule e seiva)

Garante o realismo botânico, a sensação de quebrar um galho fresco e a rusticidade da copa da figueira.

  • Absoluto de Gálbano (Ferula galbaniflua): Uma resina de verde intensamente amarga, cortante e silvestre. Em dosagens milimétricas, mimetiza perfeitamente a agressividade da seiva leitosa da figueira. (Notas de Topo / Coração)
  • Absoluto de Folha de Violeta (Viola odorata): Entrega um verde denso, folháceo, mineral e ligeiramente terroso, ideal para dar peso e sustentação ao frescor da folha. (Notas de Coração / Base)

2. A faceta lactônica (conforto aveludado)

Responsável pelo aspecto leitoso e cremoso que equilibra a aspereza das notas verdes.

  • Óleo Essencial de Sândalo: Fornece a fundação amadeirada-cremosa ideal para simular a madeira da figueira e sustentar o aspecto de "leite de figo" sem interferir no dulçor. (Notas de Base)

  • Extrato CO2 de Coco: Usado em traços apenas para emprestar a textura oleosa e amanteigada da seiva, tomando o cuidado para não "tropicalizar" demais o perfume. (Notas de Coração)

  • Manteiga de Íris (Orris Butter): Confere um toque aveludado e em pó que imita perfeitamente a textura tátil da casca do figo. (Notas de Base)

3. A faceta frutada (polpa madura)

Para trazer a alusão à carne da fruta, adicionando suculência, densidade e calor moderado.

  • Absoluto de Cassis Groselha Negra (Ribes nigrum): Traz um aspecto frutado escuro, denso, levemente ácido e sulfuroso que emula com precisão o interior carnudo e exótico do figo roxo maduro. (Notas de Coração)

  • Absoluto de Osmanthus: Um floral denso com nuances potentes de damasco e couro macio, perfeito para encorpar o lado frutuoso e maduro do acorde. (Notas de Coração)

  • Óleo Essencial de Davana (Artemisia pallens): Em microdoses, confere um toque de frutas passas, ameixa e um leve teor licoroso, ideal para uma proposta de figo mais denso ou robusto. (Notas de Coração)

Usando a fruta in natura - técnica de perfumaria natural brasileiríssima

O exercício criativo que descrevi acima, busca fazer uma criação totalmente artística, uma alusão à fruta em diversas camadas: visual, sensorial e conceitual - afinal de contas, a fruta em si não tem o resultado desse cheiro. E isso é muito interessante de se praticar pois ajuda a elevar nossa imaginação a um patamar de múltiplas sensorialidades, que vão muito além do olfato (note que usei palavras como cremoso, escuro, cortante). 

Mas sim, é possível usar a fruta in natura para a criação dos nossos perfumes naturais, graças a uma técnica chamada "fruit fire", desenvolvida pela perfumista Palmira Margarida, em seu método Perfumaria Ancestral, do qual sou aluna com muito orgulho! Essa técnica permite produzir tinturas para extrair tanto a energia como o aroma das mais variadas frutas e eu com certeza a usaria como base para a criação do meu "acorde de figo" aqui na Apotheca. 

E você, já experimentou algum perfume com acorde de figo? E se gostou desse conteúdo, ou tem curiosidade de saber mais sobre acordes em perfumaria, deixa o seu comentário abaixo. 


Referências de pesquisa para essa postagem:

  1. INTERNATIONAL FRAGRANCE ASSOCIATION (IFRA). IFRA Standards Library: Fig Leaf Absolute Restrictions. 

  2. THE GOOD SCENTS COMPANY. Fragrance and Flavor Ingredients Database. 

  3. ARCTANDER, Steffen. Perfume and Flavor Materials of Natural Origin. Elizabeth, N.J.: Publicado pelo autor, 1960.

  4. BOIX CAMPS, Arcadi. Perfumery: Aesthetics and Materials. Allured Business Media, 2009.

  5. MINTEL. Global New Products Database (GNPD): Fragrance Category Trends.

  6. PERFUMEDOM.  Wild Fig Fragrance Oil. Disponível em: https://perfumedom.com/



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